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quinta-feira, 10 de junho de 2010

AS 15 LEIS DA HERMENÊUTICA - DÉCIMA SEGUNDA LEI: A LEI DO DISPENSACIONALISMO

DÉCIMA SEGUNDA LEI: A LEI DO DISPENSACIONALISMO
Pr. Davis W. Huckabee

 
A palavra "dispensação" deriva-se de um termo latino que significa "administração" ou "gerência", e se refere ao método divino de lidar com a humanidade e de administrar a verdade em diferentes períodos de tempo. Ninguém consegue ler as Escrituras sem ver que Deus tem lidado com o homem em algumas épocas diferentemente do que Ele lidou em outras. O motivo disso é que há várias dispensações no modo como Deus lida com a humanidade. Estamos agora vivendo no que é comumente chamado "a Dispensação da Graça", embora não seja um termo bem escolhido. Pela confissão da maioria das pessoas que são sãs no plano da salvação, Deus sempre lidou em graça com o homem, começando no Jardim do Éden imediatamente depois que Adão e Eva caíram. "A Dispensação da Igreja" é uma terminologia mais adequada para a nossa era atual, pois é mediante as igrejas do Senhor que Deus está presentemente lidando com a humanidade.

Quanto ao número de dispensações em que se divide a história sacra, o número mais comumente sugerido é sete, com cinco dessas já passadas, uma na qual estamos agora vivendo, e mais uma que está ainda no futuro. J. R. Graves, em sua obra consideravelmente volumosa sobre esse assunto (que aproveitaria a todos os cristãos ler), faz as seguintes observações sobre essas sete dispensações.
 
"Ocorre-me que essas foram indicadas ou preditas pelas divisões do tempo. O tempo que ele designou para si para ajustar a habitação do homem ele dividiu em sete períodos, que ele chamou de sete dias. Cada um marcava uma fase, ou passo, na grandiosa realização, e o último marcava a consumação de tudo, e foi designado como um dia de comemoração através do descanso. Esses dias eram sete, que é a divisão divina do tempo. Observe como o número sete está presente em todas as Escrituras Sagradas [Aí, o Dr. Graves faz uma lista de quase cinqüenta vezes em que o número sete aparece de modo significativo nas Escrituras]" Todos eles apontam para as Sete Dispensações, ou Eras, que Cristo designou para terminar sua obra, e o grandioso e eterno Sabatismo com que sua obra conclui. O que chamamos de tempo é aquele período designado por Cristo para a realização de sua obra, e é dividido em eras, anos, meses, semanas, dias, horas; e, quando a obra de Cristo se completar, o tempo não existirá mais, mas se perderá numa eternidade sem limite". " The Seven Dispensations (As Sete Dispensações), pp. 165, 166.
 
A palavra "dispensação" só aparece cinco vezes nas Escrituras em português, a saber, 1 Coríntios 9:17; Efésios 1:10; 3:2; 3:9; Colossenses 1:25. Nesses lugares a palavra grega oikonomia parece ter de preferência o significa de "mordomia", ou "a gerenciamento de uma casa", como a mesma palavra grega significa em suas outras aparições em Lucas 16:2, 3, 4. No entanto, a palavra grega aion, que aparece no Novo Testamento um pouco mais de cem vezes, e é geralmente traduzida "mundo", "eternamente" ou "sempre", é aceita comumente com o sentido de "era", "época" ou "dispensação".
 
As seguintes Escrituras mostram que há só esta era atual e outra que virá, restando apenas essas duas eras antes do cumprimento de todas as coisas no grande programa de Deus. "E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século (grego aion = época) nem no futuro (literalmente, "nem no vindouro")". (Mateus 12:32) "Que não haja de receber muito mais neste mundo (grego kairos = tempo), e na idade vindoura (grego aion = época) a vida eterna". (Lucas 18:30) "Acima de todo principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século (grego aion = época), mas também no vindouro (de novo, literalmente "o vindouro")". (Efésios 1:21) Aí se vê uma era ou dispensação presente e uma que está para vir.
 
Mas como tudo isso entra na correta interpretação da Bíblia" Deve-se considerar esse assunto, pois algumas coisas das Escrituras estão ligadas somente à determinada dispensação, e se tentarmos interpretá-las em referência a outra, o resultado será muita confusão. Algumas coisas são aplicáveis a todas as eras, pois elas são princípios eternos de verdade e justiça. Assim, por exemplo, os princípios apresentados no Decálogo ou Dez Mandamentos, embora tivessem sido registrados pela primeira vez na dispensação mosaica, são de tal verdade moral obrigatória que estão em vigor em todas as eras da história do homem. Está implícito em Romanos 2:14-15 que essas leis sempre estiveram escritas no coração humano, até mesmo antes que tivessem sido escritas em pedra no monte Sinai. Ninguém pode anulá-las sob a alegação de que não pertencem à presente dispensação sem grande prejuízo sendo feito a toda moralidade, e sendo a ordem moral praticamente destruída. Ninguém viola a lei moral com impunidade, embora haja alguns ultradispensacionalistas que afirmem que essas leis não estão mais em vigor para ninguém, a não ser para os judeus.
 
Sem entrar num estudo de todas essas dispensações, e descrevê-las nos mínimos detalhes, só gostaríamos de observar que três ou quatro delas nos interessam no presente assunto. Havia muitas coisas expostas sob a Dispensação Representativa, por exemplo, que eram para instruir e preparar a nação de Israel para reconhecer seu Messias quando Ele entrasse em cena. Conseqüentemente, essas coisas deixaram de existir, no que se refere à obrigação de praticá-las, quando o Filho do Homem veio e as cumpriu. As pessoas hoje não mais precisam praticá-las, e seu principal valor hoje está em que elas evidenciam que Deus havia predito e prenunciado a vinda de Seu Filho de modo que os homens estivessem sem desculpas por sua negligência de reconhecê-Lo e recebê-Lo.
 
A morte do Ministério Representativo foi revelada quando se rasgou o grande véu, que separava o Santo Lugar do Santíssimo Lugar no momento da morte de Jesus, Marcos 15:37-38. Sobre isso há uma referência em Hebreus 10:18-20: "Ora, onde há remissão destes, não há mais oblação pelo pecado. Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne,". (Hebreus 10:18-20) O véu tipificava o corpo de Jesus.
 
Essa e numerosas outras Escrituras nos proíbem de fazer uma prática de coisas representativas em nossa forma de adoração hoje, pois elas estavam limitadas ao período de tempo que terminou com a morte de Cristo. Contudo, multidões, e até mesmo denominações inteiras, ainda hoje incorporam algumas das coisas da dispensação representativa em sua adoração nesta dispensação da igreja, o que só acaba mostrando a grande importância de considerar as divisões e limitações dispensacionais em nossas interpretações das Escrituras.
 
De novo, alguns são culpados de tentar transferir para essa dispensação coisas que tinham uma aplicação puramente judaica. Há muitas coisas que foram ordenadas a Israel exclusivamente de um modo nacional, mas que são às vezes aplicadas aos crentes hoje, como se ainda estivessem em vigor. Para citar apenas uma ilustração. Muitas pessoas, julgando pelos costumes modernos, tentam aplicar Deuteronômio 22:5 para as mulheres de hoje. Esse versículo diz: "Não haverá traje de homem na mulher, e nem vestirá o homem roupa de mulher; porque, qualquer que faz isto, abominação é ao SENHOR teu Deus". (Deuteronômio 22:5) Supõe-se erroneamente que Deus está aí ditando moda, e não só isso, mas Ele quer que essa moda seja adaptada à moderna moda americana. O uso dessa passagem é muitas vezes um pretexto para judiar diretamente das mulheres por vestirem conjunto de calças, e isso apesar do fato de que calças são muitas vezes mais decentes do que alguns estilos de vestidos, e daí, mais apropriadas. Mas o fato é que, em nenhuma parte das Escrituras Deus dita moda. Em vez disso, Ele manda que conformamos ao que é considerado culturalmente decente. Em algumas culturas o que é considerado roupa de mulher, pode ser considerado roupa de homem em outra. Em alguns países tais como a Escócia e a Grécia, saias escocesas, ou roupas como saias escocesas, são roupas de homens, enquanto em outros países, roupas como do tipo calça são usadas mais por mulheres do que por homens. Mas o uso muitíssimo comum desse texto na pregação evidencia uma arrogância que tentaria adaptar todas as pessoas aos costumes ocidentais modernos.
 
Como dissemos antes, não há evidência de que ou aqui ou em outro lugar, Deus tenha alguma vez ditado moda. O mais provável é que esse texto tenha a ver com o costume homossexual de homens e mulheres transvestirem (usando roupas do sexo oposto), que é uma questão moral, e Deus muitas vezes lida com questões morais nas Escrituras. Isso seria uma exposição deliberada da rebelião de alguém contra a manifesta vontade de Deus com relação à masculinidade e feminilidade. No entanto, a questão não é a aparência exterior, mas a atitude interior do coração.

Os que repreendem as mulheres pelo modo como elas se vestem usam Deuteronômio 22:5. É evidente que eles estão sendo incoerentes e hipócritas quando consideramos que tais pregadores jamais usam qualquer outro versículo nesse capítulo em sua pregação. É extremamente duvidoso que se possa achar algum pregador que não seja culpado de violar Deuteronômio 22:11, que diz: "Não te vestirás de diversos estofos de lã e linho juntamente". E em nossa época, há um número grande de moças que não são virgens quando se casam, mas que nunca souberam de um líder batista liderando o apedrejamento das tais. Mas veja o dever dos líderes de assumir a liderança nisso em Deuteronômio 22:13-21. E o capítulo é cheio de numerosas outras coisas que os pregadores modernos não obedecem, de modo que de novo dizemos, que é incoerente e hipócrita pegar o versículo 5 e usá-lo para açoitar membros de igrejas e, ao mesmo tempo, ignorar todos os outros versículos.
 
Essa questão não envolve só o capítulo 22, pois todas as divisões de capítulos e versículos foram feitas pelo homem, e há muitas outras coisas em Deuteronômio que devem ser aplicadas na prática diária se 22:5 é aplicável. Há na verdade algumas coisas em Deuteronômio que são apropriadas, pois nosso Senhor Jesus citou desse Livro mais vezes do que qualquer outro, e Ele próprio cumpriu o que foi predito em 18:15, 18-19. Mas muitas das leis desse Livro eram leis puramente nacionais, só para Israel, e não se deve aplicá-las de outro modo.

Tentar obrigar os santos do Novo Testamento a guardar as leis nacionais, dietéticas e cerimoniais do Velho Testamento envolve a incapacidade de reconhecer a Lei do Dispensacionalismo, e invariavelmente trará confusão e tenderá ao legalismo.
 
Muitos que afirmam ser dispensacionalistas são realmente ultradispensacionalistas, e em vez de manejarem "bem a palavra da verdade", como eles afirmam fazer, eles são culpados de bagunçarem a Palavra, transformando-a numa salada. Ninguém tem desculpa para fazer isso. Apesar disso, é verdade que há considerações dispensacionais que devem entrar em nossa interpretação das Escrituras, e ninguém pode ser totalmente correto em suas opiniões se ele não levar isso em consideração.

AS 15 LEIS DA HERMENÊUTICA - DÉCIMA PRIMEIRA LEI: A LEI DA DUPLA REFERÊNCIA

DÉCIMA PRIMEIRA LEI: A LEI DA DUPLA REFERÊNCIA
Pr. Davis W. Huckabee
 

Muitas vezes ocorre que determinada passagem das Escrituras pode ter uma referência dupla, uma imediata e local, e a outra profética e bem distante. Quando tal é o caso, há grande confusão se não reconhecemos isso e não levamos em consideração o aspecto profético da dupla referência. De maneira semelhante, já aconteceu às vezes que indivíduos recusaram aceitar a referência imediata e local, mas afirmaram que a referência só trata do lado profético e distante. Ao fazerem isso, eles foram capazes de ser indiferentes à sua própria responsabilidade no assunto. Assim foi nos dias de Ezequiel, pois ele foi comissionado para dizer aos israelitas: "Filho do homem, eis que os da casa de Israel dizem: "Filho do homem, eis que os da casa de Israel dizem: A visão que este tem é para muitos dias, e ele profetiza de tempos que estão longe. Portanto dize-lhes: Assim diz o Senhor DEUS: Não será mais adiada nenhuma das minhas palavras; e a palavra que falei se cumprirá, diz o Senhor DEUS". (Ezequiel 12:27-28)

A Lei da Dupla Referência é simplesmente o reconhecimento de que o cumprimento de determinada passagem das Escrituras pode não ter esgotado seu significado, mas que pode haver um cumprimento maior e posterior da passagem. Isso não é raro nas Escrituras, mas aparece numerosas vezes tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Isso se aplica tanto a eventos quanto a pessoas, pois as pessoas são muitas vezes tipos e representações de pessoas. Quem, por exemplo, imaginaria que havia algo mais do que uma referência imediata e local para Isaías e seus filhos na declaração de Isaías 8:18: "Eis-me aqui, com os filhos que me deu o SENHOR, por sinais e por maravilhas em Israel, da parte do SENHOR dos EXÉRCITOS, que habita no monte de Sião". (Isaías 8:18) No entanto, essa declaração é citada em Hebreus 2:13 como se referindo a Cristo e Seus irmãos. Isso é simplesmente um exemplo de Dupla Referência, e onde isso não é levado em consideração, o resultado pode ser confusão, e pode haver uma incapacidade de receber toda a verdade. Essa Lei explica muitas referências no Antigo Testamento como tendo um sentido e aplicação duplos. Sem dúvida, assim como algumas pessoas do Antigo Testamento prefiguravam Cristo, de modo semelhante pessoas que há muito tempo deixaram de existir prefiguram o Anticristo em alguns lugares.
 
Essa Lei se encontra principalmente nas partes proféticas da Palavra, pois a profecia é muitas vezes apresentada figurativamente em alguns eventos locais. Tal caso é aquele que se acha nas predições de nosso Senhor sobre a destruição de Jerusalém, que veio a ocorrer no ano 70 d.C., que prefigura a invasão final da Terra Santa por exércitos do Anticristo, e a Grande Tribulação que então sobrevirá. Isso em nada diminui o cumprimento imediato e local, nem diminui em nada o pleno sentido e força da profecia em seu primeiro cumprimento. No caso da destruição de Jerusalém em 70 d.C., a profecia se cumpriu literalmente, e incontáveis milhares de judeus foram mortos do modo mais cruel e bárbaro que dá para imaginar. Mas esse cumprimento não esgotou a profecia, pois o Livro de Apocalipse, que foi escrito depois desse evento, ainda aguarda uma matança terrível de judeus e gentios, que reduzirá a população deste planeta à quase metade.
 
Jesus declarou que "naqueles dias haverá uma aflição tal, qual nunca houve desde o princípio da criação, que Deus criou, até agora, nem jamais haverá". (Marcos 13:19) Isso é, a Grande Tribulação será um tempo de aflição que não tem paralelo na história, e do qual, em matéria de terror e selvageria, outros eventos não chegarão nem perto, de modo que é evidente que a destruição de Jerusalém não esgotou essa profecia. Desde então, já houve vários eventos que ultrapassaram em terror a destruição de Jerusalém. Por isso, o cumprimento final da profecia de Jesus ainda vai vir.
 
Muitos pensadores liberais e modernistas se equivocam porque, por negligência, não levam em consideração essa Lei da Dupla Referência na interpretação da Bíblia. Pois muito mais que freqüentemente eles procuram um cumprimento imediato e local de certas profecias, e quando essas não se cumpriram literalmente no tempo designado por esses indivíduos que se julgam especialistas na arte de interpretar, eles as explicam como falhas por parte de Deus. Pedro falou desses zombadores em sua época: "Sabendo primeiro isto, que nos últimos dias virão escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências, e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda" Porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação". (2 Pedro 3:3-4) Um número muito grande de pessoas quer fixar uma data final para Deus, e se Ele não cumpre Sua palavra bem na computação trivial determinada por eles, eles presumem que Ele falhou, ou então que Ele é incapaz de manter Sua palavra. Ou, eles poderão considerar algum cumprimento imediato e local " um que talvez seja apenas um cumprimento parcial " e achar que nada mais poderá vir da profecia. Mas na interpretação da Bíblia, seria melhor que nos lembrássemos de uma das leis básicas da Lei da Dupla Referência, que tem abertura para o cumprimento de uma profecia muito mais plena e mais tarde.
 
No começo deste capítulo, citamos o caso dos israelitas rejeitando a aplicação imediata e local de uma profecia, mas ainda mais comum é a aceitação da referência imediata e local e a negligência do cumprimento mais pleno e distante. Os escarnecedores mencionados acima manifestariam sabedoria muito maior se prestassem atenção ao aviso de Habacuque 2:2-3: "Então o SENHOR me respondeu, e disse: Escreve a visão e torna bem legível sobre tábuas, para que a possa ler quem passa correndo. Porque a visão é ainda para o tempo determinado, mas se apressa para o fim, e não enganará; se tardar, espera-o, porque certamente virá, não tardará". (Habacuque 2:2-3) Essa profecia se aplica à vinda de Cristo em Seu segundo advento em Hebreus 10:37 em que esses versículos são citados em parte nesse contexto. É evidente, pois, que essa profecia tinha uma dupla referência.profecias têm essa característica. Alguém assemelhou essas duplas referências, e o fato de que até mesmo os próprios profetas às vezes não percebiam seu duplo significado, à pessoa que observa montanhas. Essa pessoa vê só uma grande e elevada cadeia de montanhas sem discernir que há um vale amplo entre as montanhas da frente e as que ficam mais ao fundo. Até mesmo muitas das profecias da vinda de Cristo têm parte nessa natureza dupla. Uma das melhores ilustrações disso se vê na profecia de Isaías 61:1-3, que mistura elementos de ambos os Adventos de Cristo, transformando-os num só evento aos olhos do profeta. Contudo, quando Jesus pegou o rolo de Isaías e o leu na sinagoga de Nazaré, Ele separou com muita habilidade as duas partes dessa profecia mista. Ele parou de ler no meio da profecia com as palavras "Pregar o ano aceitável do Senhor", então proclamou "Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos", Lucas 4:18-21. Não se pode dizer que o restante dessa profecia se cumpriu naquele dia, nem que tenha ainda se cumprido, depois de quase dois mil anos. Mas com certeza se cumprirá no devido tempo.

Essa Lei da Dupla Referência, no que se refere a indivíduos, encontra numerosos exemplos nos livros proféticos. Principalmente em Daniel, vemos o Anticristo definitivo várias vezes retratado sob as figuras imediatas e locais do rei da Babilônia, do rei da Grécia, do rei da Síria, etc. Ninguém pode negar o cumprimento que ocorreu logo depois que a profecia foi dita. Mas também seria melhor não ignorar o fato de que essas mesmas profecias têm um segundo, ou até mesmo maior, cumprimento que ainda virá a se cumprir nos últimos dias na pessoa do Homem do Pecado.

Nós nos arriscamos a citar ainda outro exemplo de uma referência dupla no que é dito acerca de um indivíduo. Em Ezequiel 28, se faz referência ao "rei de Tiro" nos versículos 11-19, e essas palavras sem dúvida tiveram um cumprimento parcial em algum homem que ocupou essa posição e manteve esse título. Contudo, a linguagem vai além do que se poderia aplicar a algum homem, pois este é chamado de "o querubim ungido", v. 14, "querubim protetor", v. 16, títulos que jamais são dados a ninguém, exceto alguns do exército celestial. E é mencionado que ele esteve no Éden, o jardim de Deus, v. 13. Obviamente, deve haver uma dupla referência nesses versículos: uma a um mero homem, a outra ao próprio Satanás.

Tendo dito tudo isso, é necessário soar um aviso contra o desejo inato de sensacionalizar a Palavra de Deus tentando descobrir coisas secretas. Que nenhum estudante da Bíblia seja culpado de tentar manufaturar algum cumprimento secundário de um evento histórico. O único curso seguro é apegar-se somente a um cumprimento profético secundário onde textos posteriores declaram que existe tal cumprimento. Caso contrário, pode-se facilmente cair no engano de Orígenes de espiritualizar o que foi designado para ser aceito só literalmente.




AS 15 LEIS DA HERMENÊUTICA - DÉCIMA LEI: A LEI DA ANALOGIA DA FÉ

DÉCIMA LEI: A LEI DA ANALOGIA DA FÉ
Pr. Davis W. Huckabee

 
Consideramos aqui de novo a Lei que está relacionada com a Lei anterior, embora com uma abrangência bem maior. A Lei Sete lidava com a "Referência Paralela" isto é, com a consideração de assuntos relacionados dentro do mesmo tema geral. Observamos então que deve haver harmonia geral entre as divisões de qualquer assunto se são ambos verdadeiros. Mas agora devemos ir ainda mais além e considerar que se as Escrituras são na realidade uma revelação de Deus, dadas para revelar Sua vontade para o homem, então todas Elas devem harmonizar umas com as outras. A qualquer momento em que uma de nossas interpretações contradisser outra interpretação, há evidência de que uma ou outra ou ambas são falsas, pois o Deus perfeito e santo não pode dar uma revelação imperfeita ou falsa. O homem erra com suas interpretações, suas traduções, e de outras maneiras, mas não se pode culpar Deus por isso. Era comum os teólogos falarem sobre "A Analogia da Fé", mas poucos hoje sabem o que isso significa.
 
Com "Analogia da Fé" o que se quer dizer é o inter-relacionamento harmonioso de todas as doutrinas dentro dos limites das Escrituras. As doutrinas da Bíblia não se chocam nem se contradizem, mas constituem um só sistema complexo da verdade. Nas Escrituras, é isso o que se chama "A Fé", pois há uma vasta diferença entre o verbo crer, ou, ter fé, e o substantivo "a fé", que é o objeto ao qual a fé do crente se dirige. T. T. Eaton salientou de modo bem hábil essa diferença quase um século atrás.
 
"A fé do Novo Testamento é bem mais do que a mera aceitação de certos ensinos. Ter fé é mais do que crer. Um homem pode crer em tudo na Bíblia, de capa a capa, e ainda estar perdido. A fé do Evangelho é uma confiança do coração em Cristo como Salvador e Senhor, o coração que inclui a vontade, de modo que a ação vem em seguida" O que devemos crer, o que devemos ser e o que devemos fazer "de acordo com as Escrituras" " essa é "a fé" que foi entregue uma vez por todas e pela qual devermos "batalhar diligentemente" " epi-agonize" O grego é epagonizesthai, "epi-agonize " e é a palavra mais forte em qualquer língua, até onde eu saiba, que expressa intensidade da luta. No Novo Testamento, só ocorre aqui [quer dizer, em Judas 3 " DWH]. Devemos agonizar para entrar pela porta estreita [Lucas 13:24 "DWH], mas devemos epi-agonize pela "fé que uma vez foi dada aos santos". Essa, então, é a luta suprema de nossa existência. É mais importante que "a fé" seja mantida do que qualquer outra coisa, sim, do que nossa própria salvação como indivíduos. Devemos agonizar pela nossa salvação, mas epi-agonize pela fé". " Fé e A Fé, pp. 35, 45, 48-49.
 
A Lei da Analogia da Fé requer que toda interpretação que é aplicada a alguma palavra, versículo ou doutrina das Escrituras esteja em harmonia com o corpo geral da verdade em todo o restante das Escrituras. Não se pode tolerar interpretação alguma que contrarie a Palavra, em parte ou em tudo. Vê-se a importância dessa Lei no seguinte fato: quando é aplicada a uma parte da Palavra, uma interpretação equivocada tira a harmonia dessa parte com outra. Isso requer então reajustamente da interpretação da segunda parte, que pois a torna fora de harmonia com uma terceira parte, e assim por diante. O erro sempre progride e em nenhum lugar isso é mais evidente do que o erro na interpretação da Bíblia.
 
Mais uma vez, isso manifesta que o estudante sério da Bíblia não pode ser nem preguiçoso nem descuidado, pois deve haver um conhecimento completo de todas as doutrinas da Bíblia a fim de se colocar essa Lei em ação. Por isso, surge também o fato de novo de que o método correto de interpretação da Bíblia envolve muito de "comparar as coisas espirituais com as espirituais".
 
A religião cristã não é um punhado de doutrinas isoladas ajuntadas num sistema desarmonioso e discordante, mas tem um grande foco central, em redor do qual todas as coisas nele giram, e esse centro é Cristo. É interessante observar que na medida em que o sol é o centro de nosso próprio sistema solar, assim Cristo é às vezes mencionado como o "Sol", e outros termos tais que indicam que Ele é o centro do mundo espiritual. As Escrituras revelam Cristo nas seguintes personalidades: O Criador do Mundo, o Sustentador do Mundo, o Revelador do Pai, o Redentor dos homens, o Advogado junto do Pai, a Cabeça da Igreja, o Rei Vindouro do Mundo e o Juiz de todos os homens. Numa palavra, Ele é a fonte, sustentador e fim de toda a criação. "Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém"" (Romanos 11:36)
Não só isso é assim, mas as Escrituras inteiras lidam com Ele de modo maior ou menor. Por esse motivo, está escrito: "Porque o testemunho de Jesus é o espírito de profecia". (Apocalipse 19:10) Sendo isso assim, é totalmente natural que todas as doutrinas das Escrituras sejam inter-relacionadas mediante o Senhor Jesus, e isso nos dá a razão para sempre buscar interpretar todas as partes da Palavra em harmonia com todas as outras partes das Escrituras. A Bíblia é, como convertidos sem cultura em algumas terras a têm chamado, "O Livro de Jesus", pois Ele é a pessoa central nela, e todas as coisas que ela contém estão de alguma maneira relacionadas a Ele. Todas as doutrinas da Bíblia estão inter-relacionadas mediante o Senhor Jesus, e é por isso que se deve sempre considerar essa inter-relação em nossa interpretação da Bíblia. Fazer outra coisa é ignorar essa Lei da Analogia da Fé, e talvez produzir, através de nossa interpretação, um antagonismo entre duas doutrinas das Escrituras.



AS 15 LEIS DA HERMENÊUTICA - NONA LEI: A LEI DA PRIMEIRA MENÇÃO

NONA LEI: LEI DA PRIMEIRA MENÇÃO
Pr. Davis W. Huckabee



Tudo o que Deus queria que o homem conhecesse e entendesse é revelado em algum ponto nas Escrituras, e geralmente toda doutrina tem pelo menos uma passagem definitiva que expressa claramente essa doutrina, ou pelo menos o aspecto da doutrina que é ali tratada. Bem raramente qualquer coisa de alguma importância maior é mencionada na Palavra que não seja claramente explicada em alguma outra parte. E muitas vezes a passagem definitiva é a primeira referência nas Escrituras que tem a ver com aquela palavra ou doutrina particular. De modo que quando encontramos a primeira menção de qualquer coisa nas Escrituras, devemos lhe dar atenção especial, pois provavelmente será fundamental para o seu correto entendimento e interpretação.
 
Deus revelou Sua vontade na Palavra, não a escondeu, e Deus é um Deus de ordem, não confusão, 1 Coríntios 14:33 , 40. Portanto, podemos esperar encontrá-Lo explicando todas as coisas que têm a ver conosco em algum lugar em Sua Palavra. Se determinada doutrina não é explicada no texto que estamos estudando, então precisamos recorrer a todas as passagens paralelas, com estudo especial dado à primeira vez em que essa palavra ou doutrina aparece, pois é muitas vezes onde a encontraremos com a definição mais plena. No entanto, não devemos negligenciar as menções subseqüentes de uma palavra ou doutrina, pois essas menções muitas vezes dão informações adicionais sobre ela que também serão importantes.

Citamos como uma ilustração disso as referências numerosas à ressurreição de Jesus, que deveria ocorrer depois de uma estadia de três dias no túmulo. Muitos acadêmicos " alguns deles bem fundamentalistas " disseram que não se podia entender a estadia como significando setenta e duas horas literais. Eles pensam assim porque eles entendem mal em qual "preparação do sábado" Jesus foi crucificado, pois se essa preparação foi a preparação do sábado semanal, então Ele na verdade foi crucificado na sexta. E, de acordo com os métodos judaicos de calcular o tempo, um dia completo de vinte e quatro horas, mais a última parte de outro dia, mais o começo de um terceiro dia poderiam ser computados como três dias. Assim, é possível, de acordo com essa interpretação, que Jesus tivesse apenas estado no túmulo por um total de algumas vinte e seis horas. É na base dessas coisas que o mundo religioso quase unanimemente guarda uma Sexta Feira da Paixão. Eles herdaram essa perspectiva da tradição.
 
Deve-se dizer que das referências à estadia de Jesus no túmulo, sete das oito referências nos Quatro Evangelhos são de certo modo vagas, e só falam de Sua ressurreição sendo "em três dias", ou "depois de três dias". Mas a única referência restante a isso é a primeira referência, e é a que define todas as outras. "Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do Homem três dias e três noites no seio da terra". (Mateus 12:40) Não há como aplicar isso a um mero período de vinte e seis horas ou mais. No mínimo, isso exigiria um total de mais que cinco períodos de doze horas de tempo " ou três dias completos e duas noites completas, ou vice versa, que equivaleriam a um mínimo de mais de sessenta horas. Assim, se isso não for verdade, então há um erro bem evidente em Mateus 12:40.

Por outro lado, logo que uma declaração definitiva tenha sido feita sobre algo, não é mais necessário exatamente defini-la cada vez que é subseqüentemente mencionada, mas pode ser mencionada de um modo geral, e assim é nesse assunto. Mateus 12:40 define a duração exata da estadia de Jesus no túmulo do jardim, enquanto todas as outras referências posteriores são declarações gerais que remetem de volta à declaração definitiva. Mas, pode-se perguntar, como se pode reconciliar isso com a declaração de que Jesus foi crucificado na "preparação do sábado"" Bem simples" Todas as festas judaicas eram consideradas dia de "sábado", e cada uma tinha um dia de preparação. Assim, era comum que houvesse tantos quantos três "sábados" na semana em que a Páscoa e a Festa dos Pães Sem Fermento ocorriam, dependendo de qual dia da semana caía a Páscoa. E que Jesus não foi crucificado na preparação do sábado semanal " sexta " é insinuada pela ênfase dada na frase "pois era grande o dia de sábado" em João 19.31, mostrando que aquele sábado da Páscoa "era grande", " considerado mais santo do que o sábado semanal. Isso colocará todos os dados em harmonia, mas não imputará erro na Palavra de Deus como faz claramente a teoria de uma Crucificação de Sexta.
 
É por isso que é tão importante que se dê atenção especial à referência inicial a uma palavra ou doutrina nas Escrituras; provavelmente, será a definitiva, e portanto a mais importante de todas, e pode e provavelmente impedirá a introdução do erro.
 
Encontramos essa Lei da Primeira Menção sobressaindo em muitos lugares, pois é a ordem mais natural ao lidar com qualquer assunto. Pois não é geralmente a prática uma pessoa falar por muito tempo sobre um assunto antes de definir e descrever o assunto do qual ela está falando. Do ponto de vista da boa e lógica ordem, nós naturalmente esperamos que qualquer coisa seja explicada em sua primeira menção.
 
Deus deve falar ao homem em termos humanos, e usar uma ordem lógica de revelar Sua vontade se Ele quer que o homem entenda Sua vontade, e esse é exatamente o caso nessa Lei. E embora não encontremos muita razão para confiarmos na razão humana, exceto onde está em submissão ao, e dirigida pelo, Espírito de Deus, mas cremos realmente que Deus revelou Sua vontade ao homem de modo que seja tanto razoável (para a fé) quanto lógico (para a mente espiritual). Esse é um dos motivos por que cremos que uma das leis básicas de interpretação bíblica envolve dar atenção especial à primeira menção de qualquer coisa nas Escrituras.
 
Que o leitor pegue sua concordância e use as referências em muitos assuntos e ele descobrirá que é geralmente o caso, embora haja exceções à regra. Por exemplo, o Livro de Gênesis, cujo sentido é "começos", se inicia com a colocação de numerosos fatos fundamentais sobre Deus, o homem, o pecado, Satanás, a redenção e numerosos outros fatos bem importantes. Sem o Livro de Gênesis, boa parte do restante da Bíblia seria quase totalmente ininteligível. Aliás, nenhum homem poderia entender a si e a estranha predileção ao pecado que é universal ao homem sem a primeira referência ao pecado na Bíblia. Todos vimos as tentativas confusas dos psiquiatras para explicar o pecado e o mal com a exclusão das Escrituras, o que só nos prova a a necessidade absoluta de considerar a revelação que Deus deu sobre a primeira introdução do pecado, se quisermos conhecer a verdade. Assim de novo vemos a importância da primeira menção das palavras e frases nas Escrituras.
 
Esse mesmo fato é verdadeiro no Novo Testamento também, pois os Quatro Evangelhos estabelecem alguns fatos importantes dos quais a verdade é progressivamente revelada nas partes restantes do Novo Testamento. Por esse motivo, o Dr. Henry G. Weston escreveu um livro sobre Mateus que ele designava "O Gênesis do Novo Testamento". Desse primeiro livro do Novo Testamento nos aventuramos a citar duas ilustrações dessa Lei da Primeira Menção. Primeira, começa com o relato do nascimento dAquele que foi predestinado para ser o Redentor, 1 Pedro 1:18-21 e a primeira menção de Sua obra é definitiva, não só dela, mas também da divindade dAquele que a realizaria. "E dará à luz um filho, e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados". (Mateus 1:21) "Jesus" é a forma grega de Jeoshua, um nome hebraico composto de Jah, Jeová, o nome pessoal do Deus que guarda a aliança, e hoshua, salva. Seu sentido é, Jeová é salvador. Que esse nome era importante é revelado pela conjunção "porque" = por causa de " "Ele salvará o seu povo dos seus pecados". Os dois versículos subseqüentes mostram que foi profetizado que isso ocorreria, não de um modo comum, mas miraculoso " por um ato criativo de Deus, como em Jeremias 31:22. Daí, temos (1) Profecia declarada. (2) A Pessoa descrita. E, (3) A Propiciação definida, que seria limitada aos escolhidos do Senhor " só aqueles que cressem, como em tantos textos subseqüentes.

E segunda, mas de menor importância, embora ainda ilustrando o ponto relevante. Os liberais há muito negam o fato da possessão demoníaca, e atribuíam sua manifestação à doença mental que, presumiam eles arrogantemente, o povo daquela época era burro demais para entender, de modo que eles a atribuíam à atividade demoníaca. Mas a primeira menção de possessão demoníaca no Novo Testamento a distingue claramente da loucura, ou doença mental. "E a sua fama correu por toda a Síria, e traziam-lhe todos os que padeciam, acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos, e os paralíticos, e ele os curava." (Mateus 4:24) Aqui estavam realmente quatro classes distintas umas das outras: (1) Aqueles que estavam doentes fisicamente. (2) Os endemoninhados. (3) Os lunáticos, ou os com doenças mentais. E, (4) Os com paralisia, os paralíticos. Nenhum método de interpretação poderia em momento algum confundir essas classificações uma com a outra. Assim, com a simples aplicação dessa Lei da Primeira Menção, ninguém poderia tentar fazer parecer que a possessão demoníaca era simplesmente a opinião supersticiosa das massas ignorantes acerca da doença mental.


Foi provado vezes sem conta que quando se aplicam métodos errados de interpretação das Escrituras, o resultado será uma conclusão errônea. Se o intérprete ainda não crê, ou se ele tem preconceito contra a verdade, o mal será mais intenso. Os primeiros princípios precisam ser sãos, ou então nada mais poderá ser são.

AS 15 LEIS DA HERMENÊUTICA - OITAVA LEI: A LEI DO DESTINATÁRIO

OITAVA LEI: LEI DO DESTINATÁRIO
Pr. Davis W. Huckabee



Essa lei requer que consideremos de modo adequado quem, o que, quando, por que, etc., do assunto sob estudo. A primeira coisa que se deve considerar sob essa lei é A quem se dirige? Uma ilustração revelará a importância dessa lei. O mundo " sim, até mesmo o mundo religioso " tem em termos práticos concordado unanimemente que o caminho para o céu é pelas boas obras, mas nada é condenado com tanto vigor nas Escrituras como essa idéia. "Eu publicarei a tua justiça, e as tuas obras, que não te aproveitarão". (Isaías 57:12) "Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia;...". (Isaías 64:6) "Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei,...". (Romanos 3:20) "...pelas obras da lei nenhuma carne será justificada". (Gálatas 2:16) "Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou"" (Tito 3:5) Essas e muitas outras passagens negam em termos nada ambíguos a idéia de que o homem pode de algum jeito se salvar por suas próprias obras. Isso sendo assim, de onde então é que vem a idéia tão comum no mundo de que as boas obras têm algo a ver com o homem sendo salvo" Como exemplo específico, é característica do homem natural querer confiar em si mesmo, e não depender somente em Deus. E a idéia de que sua confiança em suas próprias obras auxiliará na sua salvação vem porque, por negligência, ele não considera a Lei do Destinatário ao interpretar as Escrituras.
 
As Escrituras na verdade admoestam certas pessoas a aprender "também a aplicar-se às boas obras, nas coisas necessárias, para que não sejam infrutuosos". (Tito 3:14) Aqueles que confiam em suas próprias obras para se salvarem cometem vários erros: (1) Em nenhuma parte as pessoas recebem promessa de salvação pelas obras. (2) Aqueles que foram assim admoestados já creram para a salvação. (3) As "coisas necessárias" não são para a salvação, mas ao serviço a Deus. (4) As obras são "frutos" exigidos que todo cristão vivo deve produzir para a glória de Deus, conforme João 15:1-8, que se refere somente aos que estão "em Cristo" = pessoas salvas. Daí, (5) Aqueles que pensam que essas coisas se aplicam a eles se salvando por suas próprias obras violaram a Lei do Destinatário, e tentaram aplicar para si aquilo que não tem nenhuma aplicação para eles. A graça de Deus e as obras do homem são totalmente incompatíveis no que se refere à salvação. A salvação deve ser de um ou de outro, mas não pode ser de ambos, como mostra Romanos 11:6. E muitas outras passagens declaram que a salvação é somente pela graça mediante fé em Cristo, mas nenhuma a baseia em obras humanas.
 
E as Escrituras seguintes, todas ordenando boas obras, foram também todas escritas para ou por pessoas que já foram justificadas pela fé em Cristo, e salvas pela graça. "A obra de cada um se manifestará; na verdade o Dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer [em Cristo, versículo 11], esse receberá galardão [não a vida eterna]. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo". (1 Coríntios 3:13-15) Isso foi escrito "À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso". (1 Coríntios 1:2) E até o versículo 15 acima mostra que a salvação não é a questão mencionada das obras, pois aqueles cujas obras se queimaram são, apesar disso, salvos. Obviamente, então, as obras de um homem não têm relevância para a salvação. Veja então a importância de se observar a Lei do Destinatário.
 
"Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus PARA AS BOAS OBRAS, as quais Deus preparou para que andássemos nelas". (Efésios 2:8-10) Aqui, obras devem ser o resultado e fruto da salvação, não sua causa, pois como mostra o versículo 1, até que o homem tenha sido espiritualmente ressuscitado " vivificado " ele está espiritualmente morto, e assim incapaz de fazer qualquer coisa espiritual, exceto se deteriorar mais. Além disso, qualquer obra que é feita por motivos egoístas perde seu valor aos olhos de Deus, conforme Jesus ensinou em Mateus 6:1, 5, 16, mas os homens professam fazer essas boas obras a fim de serem salvos, que é uma razão egoísta.
 
"Fiel é a palavra, e isto quero que deveras afirmes, para que os que crêem em Deus procurem aplicar-se às boas obras; estas coisas são boas e proveitosas aos homens". (Tito 3:8) Essa referência a obras claramente se limita aos crentes, ou pessoas salvas, e eles são os únicos para os quais as boas obras são proveitosas, como uma comparação com Isaías 57:12 mostra.
 
Talvez de todas as passagens em que se confia para ensinar salvação pelas boas obras, Tiago 2:14 seja a favorita. "Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé e não tiver as obras" Porventura a fé pode salvá-lo"" Aqueles que vêem esse texto como ensinando salvação pelas obras do homem não só violam a Lei do Destinatário, mas também a Lei do Contexto. Por sete vezes antes disso, nesse livro, a palavra "Irmãos" aparece, e isso é quase sempre uma evidência de uma declaração sendo dirigida aos cristãos. Mas evidência ainda mais forte do que essa, se referindo a crentes, se encontra em Tiago 2:1, onde eles são admoestados a ter "a fé de nosso Senhor Jesus Cristo", e 2:5, onde se diz que eles são "ricos em fé". O contexto de Tiago 2:14 mostra que Tiago estava simplesmente mostrando que obras serão o fruto natural da fé genuína em Cristo, que a verdadeira fé não é uma fé morta, mas uma fé viva, e que a fé verdadeira será justificada aos olhos do homem só pelas boas obras. Não é exatamente qualquer tipo de fé que é indicada aqui, pois a tradução literal do versículo 14 é ""pode essa fé salvá-lo"" Isso é, uma fé que não tem obras que confirmem, pois tal é uma "fé morta", versículo 26.
 
Outra coisa envolvida na Lei do Destinatário é se determinada declaração foi escrita apenas à geração então viva ou se tem aplicação para gerações futuras. 1 Pedro 1:10-12 sustenta essa questão: "Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas ""
 
Um dos erros comuns que muitos professores liberais e modernistas fazem é presumir que os profetas do Antigo Testamento geralmente falavam só para sua própria época, e com relação somente às questões locais. Por isso, muitos deles tentam roubar todos os crentes posteriores do consolo de muitas das antigas promessas que Deus deu. É claro, o problema deles é que eles têm um deus bem pequeno, fraco e ignorante que não se pode permitir que seja onisciente, onipresente e onipotente, e assim não pode falar a qualquer geração, exceto a uma geração que pode observar e reagir na época. Mas tal não é o Deus das Escrituras.
 
Vê-se que a Lei do Destinatário é muito importante na interpretação bíblica, pois se tentarmos aplicar uma Escritura a alguém a quem não se aplica, o resultado poderá ser só confusão. Mas de novo, deve-se considerar essa Lei a partir do ponto de vista do que se fala, pois se aplicarmos uma Escritura a algum assunto ao qual não se aplica, e ao qual não tem nenhuma relevância, o resultado será uma interpretação incorreta dela. Pode-se ilustrar isso pelo esforço dos pedobatistas para arrancar das Escrituras uma confissão da legitimidade do batismo infantil quando as Escrituras não falam disso em parte alguma. T. P. Simmons bem diz disso:
 
Com exceção do alegado batismo de bebês em batismo de família, que não trataremos no momento, não há nas Escrituras a mínima semelhança de indício de que bebês tenham em alguma ocasião sido batizados. Já se disse de modo impressionante que passagens que são usadas pelos defensores do batismo infantil caem em duas categorias. Uma categoria menciona batismo, mas não menciona criancinhas. Outra categoria menciona criancinhas, mas não menciona batismo. Uma terceira categoria não menciona nem criancinhas nem batismo". " A Systematic Study of Bible Doctrine (Um Estudo Sistemático da Doutrina Bíblica), p. 437, Edição em Português, 1985.
 
Se tentarmos forçar uma Escritura a dizer algo que não estava na mente do Escritor Divino ao dar essa Escritura, então o resultado é que essa Escritura será distorcida de seu contexto, e arrancada de sua harmonia com todo o resto da Palavra. A conseqüência só poderá ser má interpretação e confusão para todos os que aceitarem essa interpretação distorcida. Alguém disse muito bem: "Devemos deixar as Escrituras dizerem o que pretendem dizer".
 
Finalmente, essa Lei do Destinatário também tem a ver com a pergunta: Quando ou Sob que circunstância a Escritura em questão foi dita" Pois circunstâncias podem ter um grande efeito no sentido de um versículo ou passagem das Escrituras. Podemos ilustrar isso de um evento na vida de Paulo. Em 1 Coríntios 2:2 Paulo declarou: "Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado". Algumas pessoas, não considerando as circunstâncias presentes, têm considerado isso como justificando-as em pregar nada de natureza doutrinária em ocasião alguma, mas como incentivando só mensagens evangelísticas. Mas tal não era a intenção de Paulo nem era isso a sua prática, pois ele pregava mensagens doutrinárias bem fortes, até mesmo para os coríntios carnais. As circunstâncias do escrito dessas palavras mostram que quando Paulo foi a Corinto pregar o Evangelho, ele estava no ponto mais baixo da sua vida ministerial, pois ele havia acabado de ter um dos retrocessos mais graves de sua vida inteira. Uma comparação de 1 Coríntios 2 com Atos 17:16-18:1 revela que enquanto estava em Atenas antes de chegar a Corinto, Paulo havia pregado o Evangelho. Mas ele havia evidentemente tentado pregá-lo aos atenienses, não em sua simplicidade local, mas em termos intelectuais contemporâneos de acordo com o intelectualismo dos atenienses. Ele chegou ao ponto de citar poetas pagãos para confirmar o Evangelho, Atos 17:28-29. O resultado foi que em Atenas, a pregação de Paulo foi menos bem sucedida do que em qualquer outro lugar em que ele pregou. Foi, aliás, quase um fracasso deprimente, pois só um punhado de pessoas se converteu. E se houve um número suficiente para que se organizasse uma igreja ali, jamais se faz menção a ela. Isso foi o que fez com que Paulo escrevesse a declaração de 1 Coríntios 2:2. Ele simplesmente queria dizer que de agora em diante quando ele pregasse o Evangelho, seria na simplicidade do Evangelho, e não "com sublimidade de palavras ou de sabedoria", como foi feito aos intelectuais de Atenas, 1 Coríntios 2:1.

Uma boa parte do Novo Testamento faz citações do Antigo Testamento, e só é possível compreendê-lo de forma plena se considerarmos as circunstâncias do texto original. Portanto, é muito importante no esforço para interpretar qualquer passagem das Escrituras considerar as circunstâncias presentes no momento em que a declaração original foi entregue.